domingo, 16 de dezembro de 2012

Vazio

Todos os "quase" me atormentam de uma vez só, como gotas infinitas caindo sobre uma superfície de madeira em noites de insônia.
Imagino todos os acontecimentos passando diante de meus olhos, tão rápidos como árvores ao longo de uma estrada, a lugar nenhum.

Não é um arrependimento, é um descontentamento acomodado. A saudade que não matei, o livro que não li, as viagens que não fiz e as coisas que não disse. Que se tivesse uma nova oportunidade, também não os faria.

Pouco importa. Qualquer tédio que me consuma, qualquer alegria que me entristeça. Porque estou em um estado de constante nada, toda e qualquer coisa nenhuma habita meu ser.

Umas poucas palavras que nada dizem, sons que não escuto e pessoas que não vejo. Um incômodo cômodo.

Um vazio por si só, que me preenche por completo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Coisas que não posso dizer

Só vim dar uma breve explicação sobre as coisas que não posso dizer.

Não era para você saber, mas foram por sua causa...

todas as noites que eu não dormi.
todo sorvete do mundo que eu tomei.
todo o álcool que eu ingeri.
e todas as bocas que eu beijei.

Não era para você saber, mas escrevi mil mensagens que não enviei, pensei em dizer mil coisas e me calei.
E até essa breve explicação com rimas pobres eu estava tentando esconder.

Mas, que importa, não era para você saber.
São apenas coisas que eu não posso dizer.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Como ser elegante na chuva, por Natália A.

1. Tenha um guarda-chuva bonito, de preferência sem estampa floral brega e que não vire antena parabólica. 2. Não se deixe abalar pelas poças: molhou seu scarpin? Saia fazendo carão, mesmo com água até a canela. 3. Não use capa, é só água, é preferível se molhar a estar vestido de cambista do Pacaembu e encontrar um conhecido, isso arruinará por muitos anos seu senso fashion perante essa pessoa. 4. Não use chinelo. Isso vale para os dias não chuvosos. Caso use algo aberto no pé, não faça aquelas florzinhas cafonas na unha. 5. Quando um carro te jogar água, não se abale. Saia como se fosse a gata molhada do Gugu, é preciso saber sensualizar em qualquer situação, mas lembre-se: roupa branca ou clara NÃO. 6. Não se preocupe com a chapinha, isso vai te fazer esquecer o andar de passarela que você tem que manter enquanto desvia das poças. 7. Não compartilhe guarda-chuva, é romântico, é solidário, mas inspira humildade, coisa de Corinthiano. Humilde e solidário só quando você for a a Lady Di.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Des-sono

Desacordo, desatino e desando a pensar.
De dia, desconcentro
À noite, desdurmo.
Desfaço o laço,
Mas desacostumo.
À noite reescrevo, re-falo, ressalto, repito
De dia desisto, desespero e desembaraço.
À noite revejo, refaço, reitero
De dia resisto, reparo, não quero.
À noite des-mudo, insisto e declaro
O ciclo recomeça de dia, ojerizo, arrependo e me calo.
À noite, tudo vem à tona. Des-sono, desassossego, despreocupação
Prossigo, não mudo, não cresço, não paro e nada, nada me faz des-pensar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sossego

Sempre que vislumbro o sossego, a inquietude perturba em dobro. Alimenta meu silêncio e depois me faz quebrá-lo. Inconstância. Qualquer vestígio de equilíbrio me afasta. Há tempos não degusto a paz. Só quero fechar os olhos e dormir. Mais nada.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Homo fingidus

dissimulado
dis.si.mu.la.do
adj (part de dissimular) 1 Que tem por costume dissimular; calado, fingido. 2 Oculto, encoberto, disfarçado. 3 Astuto, manhoso, pérfido.

O ser humano possui a infeliz necessidade de viver em bando. Para tanto, escolhe a dedo, calculando milimetricamente, mesmo que inconsciente, cada integrante de seu grupo. Obviamente, os grupos não se unem de graça, é preciso existir um interesse em comum de todas as partes, não existe amizade desinteressada, união sem propósito.


A escolha

Na sede da busca pelos mamíferos do bando, o ser (que chamarei carinhosamente de homo stupidus) esquece de fazer a entrevista completa característico do desespero interno que existe dentro dele. A busca acaba por ser superficial, tentando suprir o que cada um vislumbra para si. 


O pecado


Excesso, sempre o excesso. De simpatia, de bom humor, de solicitude, de altruísmo. Qualidades suficientes para passar no teste do Homo stupidus, que cegado pela sua própria necessidade, esquece que o Homo fingidus dissimula, finge preencher os requisitos, mente no currículo.


A queda


Juntos, formam uma nova espécie: a stupidus-fingidus. Pensam conquistar o mundo, preencher lacunas, ditar regras e escolher participantes. Tudo, claro, na mais perfeita harmonia e cumplicidade. 

"Desconfie do homem que diz não desconfiar, a bondade em excesso não é sinal de ingenuidade e, sim, de esperteza."

Incompletos por reprimirem seus próprios eus, seguem enquanto conseguem manter a "perfeita" imagem construída. Quando afundam, trocam de bando. 

Entre o bando, existe  Homo avoadus, que muitas vezes não nota que é manipulado, mas, bem tratado, sente-se seguro e protegido. Logicamente, aceitá-lo no bando é uma estratégia de interesse: quanto mais melhor. 

A queda ocorre quando o Homo observador, por muitos conhecido como lunaticus, enxerga além das aparências e expõe o que existe por trás das máscaras, sendo reprimido, vetado, condenado e, principalmente, aceito no bando apenas quando há vantagem maior do que arriscar os disfarces. 

O Homo observador esbraveja enquanto o fingidus se mantém sereno, grita enquanto o fingidus não muda o tom de voz, ofende e fala a verdade enquanto o fingidus diz o que cada um quer ouvir para conseguir aliados.

Contudo, embora adorado, o fingidus não tem vida longa. E acaba por se enforcar com a própria corda.



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Enquanto isso, só observo. Coloco quantos minutos no cronômetro?


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Tudo a mesma coisa de sempre

Engraçado esse ar de superioridade nas redes sociais. Um é porque tem as "melhores" fotos, outro é porque fez uma viagem que pagou em 24x inesquecível. Essa incansável disputa de quem tem a melhor vida, a melhor piada, a pia com mais louça para lavar.

Na época das cavernas, seria a melhor pintura rupestre presenteada com um singelo "curtir"?
Iriam os rebeldes e hereges, na Idade Média, se encontrar no vão do MASP para fazer protesto debaixo de chuva? Mistério.

Em um dado momento, algumas pessoas vão cansar de correr, de tentar ultrapassar, de se esforçar para sempre estar na frente. Vão notar quão patéticas suas vidas são e quão involuídas suas ideias se mostram. É toda uma pré-história com tablets. (convenhamos que o homo nem erectus está mais, quem dirá SAPIENS).

Toda esta necessidade mórbida de autoafirmação e exibicionismo é uma ode à mediocridade.

Dizem ser amargo aquele que vê a realidade, fala sobre, para, quem sabe, abrir os olhos de alguém. O remédio é amargo, mas proporciona a cura. Camuflar a dor com arco-íris e flores só adia o que cedo ou tarde vai acontecer e, quanto mais demora, mais difícil é a cura e maior é a dor.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (...)

Se toda essa energia que cria personagens, edita vidas e satisfaz o ego fosse colocada em prática para um bem maior, não uma necessidade mórbida, mesmo que individual. Toda necessidade mórbida, que não fisiológica, há de ser uma doença.

E depois de toda mediocridade e ignorância: abençoados são estes, pode-se concluir - que gastam seus preciosos (e ociosos) tempos planejando seus eus, enquanto uns e outros enlouquecem pensando em todo este processo.

Confortante saber, pelo menos, que o pensamento é livre.


Recomeço

Não bastasse eu estar cansada de todas as minhas postagens pernósticas, também resolvi renovar este blog.