segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Chico Buarque de Holanda

Constantemente músicos e compositores se queixam de ter poucos espaço na mídia, que uma música precisa ter um estilo específico para que faça sucesso. De fato, para ser popular, requer que você siga o padrão pop, seja ele em qualquer tipo de música. Mas o que tem qualidade nunca passa batido, cedo ou tarde.

"E como já dizia Jorge Maravilha, prenhe de razão..."

Que compositor em toda a face da Terra, utilizaria com maestria a expressão "prenhe de razão"?
Chico Buarque, o prazer é todo meu.


O conceito de "BOM" não foi distorcido. Quem entende de música diferencia perfeitamente o joio do trigo, e, mesmo que não goste ou não ouça, sabe reconhecer o que é bom.

Que letra, além de Todo o Sentimento, expressa melhor um amor de tempos diferentes, de sentimento unilateral por cada uma das partes em distintas ocasiões e que, numa terceira, se encontra para então consumar tal amor, finalmente correspondido por ambos os lados.

Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

(...)

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza (...)

Já, Olhos nos Olhos, composta por eu-lírico feminino, como em cantigas trovadorescas, retrata uma "vingança" feminina, que lida com a rejeição dizendo o quão está bem agora, deixando claro a quem a deixou, que está "muito bem, obrigada".

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.

Na realidade, toda mulher sonha em um momento de superar aquela paixão não correspondida e dar o troco. Fato é que só pensam nisso enquanto nutrem tal paixão, após esquecê-la, esquecem o desejo de mostrar que estão bem. A mulher que faz questão de mostrar que está algo, a necessidade de afirmação que suscita a dúvida.

Seguindo a mesma linha de Olhos nos Olhos, Com Acúcar, Com Afeto também é composta por eu-lírico feminino e conta a história muito comum entre mulheres (principalmente de épocas mais antigas) que esperavam seus maridos em suas casas, enquanto faziam o serviço do lar, marido que muitas vezes era bêbado, vagabundo, boêmio e até mulherengo. Mas que, como boas Amélias, não reclamavam, eram submissas.

Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão, qual o quê!
Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
 
E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Como vou me aborrecer? Qual o quê!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você.

Contrução, uma das mais geniais letras na Língua Portuguesa, é uma música completa, que se destaca, obviamente, no aspecto semântico. Construção tem três significados: 1º - O mais óbvio de todos: trata-se de um trabalhador de uma obra (contrução) que sai de casa para o serviço (indicando uma rotina - beija a mulher, os filhos), que é descrito de forma magistral pelo compositor, e mais tarde cai de lá de cima, estatelando-se no chão. 2º - A construção da letra, perfeita coesão e unção de estrofes, todas relacionadas entre si. 3º - Significado metafórico, contrução e DESconstrução: que pode remeter à vida - frágil - ou ao momento em que foi escrita, durante a Ditadura Militar.
A melodia, também, conveniente, tem pontos altos e baixos conforme o desenrolar da letra.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido

(...)

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado

(...)

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

As três estrofes, com vocábulos trocados representam a contrução de palavras da música.

Em Maninha, que Chico canta com Miúcha, sua irmã, é, segundo o próprio Chico, uma música metafórica. O "Ele" em questão trata-se da Ditadura Militar. Então, muito mais que uma letra nostálgica, de dois irmãos falando de seu passado e seus planos para o futuro, mas que são interrompidos por 'ele' (um terceiro - tudo indica que é um mal, uma pessoa, uma doença).

Se lembra do jardim, oh maninha
Coberto de flor
Pois hoje só dá erva daninha
No chão que ele pisou

O que Seráque possui duas versões - À Flor da Terra e À Flor da Pele, o amor - como sentimento - abstrato e sublime - e físico, a paixão - sexo.

Em À Flor da Terra, o amor é a paixão, o desejo.

O que será? Que Será?
Que vive nas idéias
Desses amantes
Que cantam os poetas
Mais delirantes
Que juram os profetas
Embriagados
Está na romaria
Dos mutilados
Está nas fantasias
Dos infelizes
Está no dia a dia
Das meretrizes

Em À Flor da Pele,  o amor é o sentimento abstrato, inevitável.

Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta os olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida nem nunca terá
O que não tem remédio nem nunca terá
O que não tem receita...

 Cotidiano é outra música que tem combinação perfeita de letra e melodia. Lembra a 'mesmice', o dia-a-dia, a rotina de um casal, aparentemente construída pela mulher, que provavelmente não percebe que 'todo dia ela faz tudo sempre igual' e com isso, irrita o marido.

Todo dia eu só penso
Em poder parar
Meio-dia eu só penso
Em dizer não
Depois penso na vida
Prá levar
E me calo com a boca
De feijão...

Trocando em Miúdos, o fim de um relacionamento retratado lindamente pelo poeta.

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

 Nostalgia, ressentimento e, definitivamente mágoa.

Pedro Pedreiro, o uso, magistral, de anáforas, aliterações e repetições. "Pedro pedreiro penseiro esperando o trem..".

Poderia citar e interpretar outras inúmeras letras do mestre, que por uns medíocres e outros é considerado MEDIANO. Não gostar é permitido, o que não é.. é classificá-lo como ordinário. Não, o conceito de bom não foi distorcido. Não vejo Chicos Buarques surgirem por aí com nada parecido, talento: ou você tem ou não - começa por aí - não é ter material e vontade, isso pode te levar a alguns lugares e depende da sua sorte. O talento, indistcutível, genuíno é sempre incompreendido no início e reconhecido no final, como toda genialidade.

Apareçam, de onde estiverem, espero que quem reclama de não ter espaço pra mostrar seu 'talento' tenha algo de Chico Buarque, Noel Rosa, Cartola, Adoniran ou Humberto Teixeira, caso contrário, encerro a conversa por aqui.

Levou os meus planos, meus pobres enganos
Os meus vinte anos, o meu coração
E além de tudo me deixou mudo o violão

4 Confissões:

Leandro Merlllin disse...

Pra lá de suspeito que eu comente um post sobre Chico Buarque, mas não resisti. Gostei bastante de algumas interpretações, certas visões ligeiramente diferentes das que eu acho, mas gostei. E confesso que não me recordava de "Maninha".
No mais, me orgulho de admirar um cara que sabe usar como ninguém "prenhe de razão".

Beijos!

Um Eremita disse...

Um dos posts mais geniais que já li nesse blog. As interpretações me deixaram com uma irresistível vontade de baixar o cd "Construção".

E agora você deve estar se perguntando: "como assim, SÓ AGORA esse cara ficou curioso pra ouvir esse álbum? Como assim NUNCA tinha ouvido antes?"

Pois é, e eu respondo me aproveitando de um trecho espetacular que quero destacar do post:

"Não gostar é permitido, o que não é.. é classificá-lo como ordinário."

Exatamente! Concordo em cheio com você. Veja meu caso, por exemplo. Não gosto muito do Chico Buarque. Mas não porque eu ache ruim, ou considere que exista algum defeito grave em sua obra ou simplesmente "desgoste" das músicas dele. É simplesmente porque me identifico e ouço com mais frequencia rock. Mas isso não me impede de considerá-lo um excelente compositor e um gênio. Apenas não me identifico muito com a sonoridade que ele produz. É um "não gosto" mais no sentido de "não acompanho", mas não no sentido de ter ojeriza ou aversão. E mesmo com essa falta de identificação com a musicalidade dele, gostei muito do pouco que já ouvi de Chico Buarque.

Eu era muito fã (depois desencanei) do Los Hermanos e sei que muitas coisas do cd "Bloco do Eu Sozinho" foram inspiradas no Chico. Até já os vi citando o cd "Construção" como uma obra-prima da música brasileira.

Portanto, seu post só me motivou a ir atrás da obra e desgustá-la de mente aberta, mesmo não sendo tão fã da música.

Linda Carioca disse...

Ah, como é bom ler um post assim ! Tenho saudades de conviver com pessoas que tem bom gosto musical ! Beijos !

MassaG disse...

Ahá! Muito bom o post! A riqueza das letras do Chico Buarque tão muito acima da minha compreensão. Contento-me em apreciar a profundidade da harmonia mesmo.